O amazonense que desafiou a saudade para combater o crime

351

Alerson da Silva Martins, natural de Manaus, é um dos 140 alunos que se formam em Rio Pardo na tarde desta sexta-feira

Distância da família foi a parte mais difícil da formação para Alerson, de 26 anos

Por: FERNANDA SZCZECINSKI Portal GAZ

Ao tentar descrever como estão as expectativas para esta sexta-feira, quando se formará soldado da Brigada Militar, Alerson da Silva Martins, de 26 anos, segura o choro e diz, com a voz estremecida, que faltam palavras. Natural de Manaus, capital do Amazonas, ele veio para o Rio Grande do Sul, a 4,4 mil quilômetros da sua terra natal, após ser aprovado no concurso da BM, há oito meses.

Antes disso, foram cerca de dez meses de estudo e muitos dias de aflição até ver seu nome na lista dos convocados. Suplente, ele foi escalado somente na última chamada. Depois desta sexta, ao lado de outros 139 alunos, Alerson receberá a farda e deixará o quartel de Rio Pardo para atuar nas ruas da região.

“Era um sonho de criança. Meu pai é policial aposentado, então, eu sempre tive essa referência dentro de casa. Estudei em colégio militar, depois trabalhei como motorista terceirizado da Prefeitura de Manaus e estava estudando há cerca de dez meses quando fiquei sabendo do concurso. Tentei em Alagoas e depois aqui, até que chegou a chamada”, recorda o amazonense.

Além de realizar o sonho de atuar na segurança pública, no entanto, Alerson tem muitos outros motivos para estar emocionado com a formatura. Depois de quase um ano longe da família, ele recebe amanhã os pais, irmãos e sobrinhos, que devem ficar hospedados com ele pelos próximos dias.

Lidar com a saudade, mais do que as horas debruçado sobre livros e nos treinamentos físicos pesados, foi para Alerson a parte mais difícil da formação de policial. “Aqui a gente aprende a se preparar para lidar com a morte, mas ninguém ensina a não sentir falta da família. Lidar com a saudade é pior do que enfrentar o perigo”, afirma.

Apesar de estar longe dos pais, tios e irmãos, o soldado não esteve completamente sozinho durante o curso. A esposa Silvany Taís, farmacêutica, mudou-se para Rio Pardo junto com ele e acompanhou de perto toda a dedicação do marido. “Ela já chora toda vez que fala na formatura, porque sabe como foi difícil toda a trajetória para chegar até aqui.”

Os moradores da Cidade Histórica, que tem sido o lar do casal desde o início do ano, também foram importantes para a adaptação dos dois à nova realidade. “Apesar do frio, que no começo foi estranho, gostei muito da região e fui muito bem acolhido. O chimarrão também não é de todo ruim, mas tomo mais para me aquecer. Fiz tanta amizade aqui que nem sei quem chamar para a formatura”, diverte-se.

Com o certificado de policial em mãos, o soldado pretende trabalhar diretamente nas ruas e buscar mais um diploma em breve, em Direito. Daí para a frente, o objetivo dele é continuar alcançando novos cargos dentro da Brigada Militar.

Melhores alunos do Estado fizeram o curso em Rio Pardo

Foram as propagandas sobre o alistamento militar, com soldados descendo de helicópteros e entrando em terrenos perigosos, que levaram Edimilson Luiz de Oliveira, de 27 anos, a se tornar um dos alunos da BM em Rio Pardo. Filho do meio de um casal de agricultores de Dom Feliciano, ele se mudou para Santa Cruz em 2011 para servir ao Exército e, em 2015, esteve na missão de paz no Haiti.

Por lá, atuando no patrulhamento ostensivo, decidiu que queria ser brigadiano. “Eu sempre sonhei com a carreira militar e, assim que completei 18 anos, me alistei. Quando estava no Haiti, fui para as ruas e entrei em contato com a comunidade. Vi que era isso que eu queria, porque no Exército a gente acaba ficando muito dentro do quartel”, conta.

A rotina militar e o fato de já estar acostumado a lidar com a distância da família contribuíram para que Edimilson terminasse o curso como o melhor aluno do Estado. Esse esforço foi reconhecido em Porto Alegre na última sexta-feira, durante a formatura dos alunos que fizeram o curso na capital. “Recebi a medalha do governador. Fico olhando as fotos no celular e é só alegria, um sonho realizado”, diz.

Antes disso, no entanto, o celular havia sido deixado de lado e as redes sociais não faziam parte da rotina do soldado. “Excluí o Instagram e tirei o Facebook do celular. Dediquei-me totalmente aos estudos e revisava os conteúdos todos os dias. Mas quando a gente faz o que gosta, não é difícil.” Edimilson também espera ficar na região e cursar Direito em breve, para seguir avançando dentro da BM.

Durante a formação, Edimilson abandonou redes sociais

A primeira entre as mulheres

Ao contrário dos colegas, a cachoeirense Jéssica Florence Moraes, de 26 anos, descobriu que queria ser policial militar pouco antes de tentar o concurso para a BM. Até o ano passado, ela estudava Engenharia Ambiental na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e estava no oitavo semestre quando ficou sabendo da oportunidade e decidiu abandonar o curso.

“Eu sempre gostei de ajudar as pessoas e é isso que eu me vejo fazendo dentro da Brigada. Não atuando tanto com prisões, mas no policiamento comunitário ou na patrulha ambiental”, comenta. O policiamento comunitário, inclusive, tem sido uma das apostas da BM, que trabalha para desconstruir a imagem de uma polícia “truculenta” e se aproximar cada vez mais da sociedade.

Para Jéssica, lidar com a disciplina e a rotina militar foi a parte mais difícil da formação, o que não a impediu de concluir o curso como a terceira melhor soldado de Rio Pardo e a oitava melhor do Estado. Dentre as mulheres, ela foi a mais bem colocada do RS.

“Meus pais sempre me deram muita liberdade, e aqui foi diferente. A gente recebia ordens, tudo tinha horário e foi difícil lidar com essa parte psicológica. Os dias passavam devagar e a formatura parecia que nunca ia chegar, mas agora está aí. É gratificante saber que dei o meu melhor e os resultados agora estão aparecendo”, comenta. Apesar do desejo de voltar a Cachoeira do Sul e para perto dos pais, de quem é filha única, Jéssica garante que qualquer município será bem-vindo para exercer a nova profissão.

Jéssica quer atuar na área ambiental e comunitária da BM