A morte dos dois bombeiros gaúchos: como tudo aconteceu

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Os corpos foram achados a menos de cinco metros da porta de saída do prédio colapsado 

Depois de uma semana de trabalho incansável, os corpos de Munhós e Almeida foram localizados debaixo de uma montanha de escombrosRodrigo Ziebell / GVG/Divulgação

GZH

— Contamos até 15 e tudo desmoronou de vez.  

Essa lembrança persegue o último bombeiro que saiu do prédio da Secretaria de Segurança Pública do Estado. Sujo e ofegante, acreditava que ninguém tinha ficado para trás. Estava errado.  

A história começou meia hora antes, por volta das 22h30min, quando os primeiros  homens chegaram ao pátio do edifício já em chamas. Ao se agruparem,  olharam para as labaredas no quarto andar. O  comando traçou a estratégia, enquanto esperava o reforço, que chegaria em breve: subir pela escada de incêndio até os pavimentos superiores e, usando mangueiras, impedir que as labaredas se propagassem. Um bombeiro que estava na cena relata: no meio do caminho, se deram conta de que a fumaça e o calor já eram insuportáveis, mesmo para os equipamentos de última geração que usavam — a roupa importada, resistente a altas temperaturas, o capacete francês e o sistema de respiração autônoma, que incluiu um cilindro capaz de garantir entre 30 e 40 minutos de ar isolado do ambiente externo.  

Quando a equipe retornou ao pátio depois da primeira tentativa de ação, os planos foram redefinidos. Como era impossível evitar que o fogo  consumisse os andares superiores, restava a tentativa de preservar a parte inferior do antigo prédio. Logo, foram designadas equipes para entrar e iniciar a missão. No interior, os primeiros estalos foram ouvidos.  

 Eram diferentes de tudo o que já tinha escutado — revelou depois um dos integrantes da guarnição aos seus colegas.  

Tentavam resfriar com água o entorno, quando aconteceu. Foi um estrondo, acompanhado de uma violenta lufada de poeira. Tudo começou a cair – luminárias, pedaços de concreto, reboco das paredes. Os bombeiros saíram correndo, sem visibilidade alguma.  

— Eu só sentia as coisas batendo no meu corpo — relembra um dos que conseguiram se salvar.  

Enquanto corria, lembrava que tinha feito apenas uma curva até o local onde estava. E, assim, conseguiu chegar até a saída, onde encontrou os companheiros que lá chegaram quase no mesmo instante.  

Aliviados, viram uns aos outros. E o que não havia desmoronado ainda, desmoronou. O interior do prédio onde estavam 15 segundos antes veio abaixo, tal qual um castelo de cartas. Passava das 23h.  

— Tá todo mundo aqui — afirmou um deles, aliviado.  

Foi quando alguém disse: 

— O sargento Munhós subiu com mais um.   

Breve silêncio.   

Lucio Ubirajara de Freitas Munhós, 51 anos, e Deroci de Almeida Costa, 46 anos, haviam tomado um outro caminho, na ânsia de cumprir o seu dever.  Até porque estruturas como aquela não deveriam desmoronar em uma hora e meia de exposição às chamas.   

O contato pelo rádio foi tentado várias vezes.  

Sem resposta.  

A notícia do sumiço começou a circular. Um bombeiro que estava no incêndio durante a madrugada testemunhou o telefonema da esposa do tenente Almeida a um dos oficiais.  

— Por que ele entrou? — foi a primeira pergunta, em tom aflito.  

— Entrou porque é bombeiro — foi a resposta emocionada, ouvida por colegas que estavam ao seu redor.  

Veio então o apelo da mulher, que já intuíra o desfecho daquela madrugada:  

— Promete que vais trazer ele para a família? 

O interlocutor nem precisou pensar duas vezes:  

— Não vamos sair daqui antes de encontrá-lo.   

— Tudo o que é possível foi feito — garantiu o comandante dos bombeiros, coronel César Bonfanti, que passou os dias da busca entre os escombros.  

Um dos seus subordinados diz o mesmo,  de outro jeito:  

— A gente não aceita perder para o fogo — desabafa.  

A frase emoldura com absoluta precisão o drama que se desenhava enquanto as labaredas avançavam e os dois bombeiros seguiam desaparecidos.   

A inquietação se espalhou pelo pátio do prédio em chamas, agora já colapsado. A vontade era entrar e desafiar o calor e a fumaça para buscar os colegas. Mas a razão indicava que essa decisão significaria mais dor e sofrimento, pela impossibilidade de qualquer ação produtiva em meio ao fogo e às ameaças de novos desmoronamentos.  

— Por que a gente não vai assim mesmo? — sugeriu um dos homens.  

— Não vamos porque não quero saber de mais telefonemas como esse — respondeu um oficial aos homens que participavam da conversa, relata uma testemunha.   

A cena descrita a seguir foi vista por mais de uma pessoa: no meio da madrugada, um bombeiro, solitário e aflito, rondava o prédio com sua lanterna, procurando um jeito minimamente seguro de entrar.   

Não conseguiu.   

A dor pela impotência virou choro, quando ele foi possível.  

— Depois de tudo, eu preciso de força para voltar pra casa e cuidar dos meus filhos, da minha esposa, ainda tenho que viver minha vida — foi o que um bombeiro conseguiu dizer, frustrado.   

Ele e seus colegas sempre souberam que tinham um compromisso, uma missão  fundamental:  

— Nós vamos dar a eles a despedida de heróis que eles merecem — afirmou, sete dias depois, um soldado que viu e viveu tudo de perto.  

E foi assim que aconteceu na quinta-feira, com o adeus pontuado por lágrimas e marcado pela honra.  

Depois de uma semana de trabalho incansável, os corpos de Munhós e Almeida foram localizados debaixo de uma montanha de escombros. Não tinham qualquer sinal de queimadura. Morreram sob o peso de um prédio que não deveria ter caído. Estavam a menos de cinco metros da porta de saída que os levaria à companhia dos seus colegas do lado de fora do edifício que pegou fogo naquela noite de 15 de julho de 2021, a última das suas vidas.