Da vida nas ruas ao convívio com policiais: a história dos cães mascotes do Batalhão de Polícia de Choque de Caxias

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Tchoff e Bailarina encontraram aconchego e companhia na tropa

Tchoff (E) e Bailarina vivem nas dependências da unidade da BM no bairro São JoséAntonio Valiente / Agencia RBS

PIONEIRO

O 4º Batalhão de Polícia de Choque da Brigada Militar de Caxias do Sul tem dois “recrutas” mais do que especiais: Tchoff e Bailarina. Os nomes podem até confundir, mas os soldados garantem que não existe ninguém mais preparado para proteger a unidade no bairro São José.

Tudo começou em dezembro de 2019, perto do Natal, quando o primeiro comandante do recém-formado 4º Batalhão de Choque, major Álvaro Martinelli, estava viajando para Bento Gonçalves para participar de um curso com os soldados. Enquanto dirigia, ele avistou um cão atropelado e agonizando sozinho na estrada. 

O major resgatou o animal e levou ao veterinário. Naquele momento, ele diz ter lembrado de uma  mensagem que sempre transmite aos alunos de seus cursos: “Ninguém fica para trás, começamos juntos e terminamos juntos”. Foi então que decidiu levar o cão para viver no batalhão.

Tchoff: o primeiro “recruta”

Arquivo pessoal / Divulgação
Após ser atropelado, Tchoff foi resgatado e adotado pelos policiaisArquivo pessoal / Divulgação

O batalhão havia entrado em operação apenas um mês antes, em novembro, e os soldados não tiveram dúvidas de que acolher o novo “recruta” era a coisa certa a ser feita. Além dos cuidados médicos, o animal ganhou alimentação, roupas, uma cama e um nome: Tchoff.

A soldado Sabrina Thomazoni explica que o nome dele vem da experiência do batalhão. Quando um soldado faz algo que não deveria durante um curso, ele tem que ir “tomar um tchoff”, uma espécie de banho. E o encontro entre os soldados e Tchoff pode ser explicado assim, algo que não estava planejado durante aquele curso em 2019.

Bailarina: a empolgada

Antonio Valiente / Agencia RBS
“Já parece a dona da casa “, brinca a soldado Sabrina Thomazoni ao se referir à Bailarina, uma das mascotes do Batalhão de ChoqueAntonio Valiente / Agencia RBS

Já a Bailarina chegou há pouco tempo, cerca de um mês. A cadela apareceu debilitada no portão do batalhão e não quis mais ir embora. Por já estarem acostumados com a presença de Tchoff, os soldados decidiram acolher a nova hóspede.

— Foi ela quem adotou a gente. Apareceu ali, ninguém sabe de onde veio, a gente brinca que foi o Tchoff que trouxe ela. Parece que está ali há mais tempo, porque já parece a dona da casa — conta Sabrina, aos risos. 

Seguindo a tradição policial, o nome Bailarina vem de um tipo de granada. Ao ser ativada, o artefato bélico rodopia sem parar durante muito tempo, o que lembra a Bailarina, sempre serelepe do batalhão.

— Uma das formas de descrever um batalhão de choque é união e realmente o pessoal é muito unido. Quando o major trouxe o primeiro (Tchoff)  todos se uniram e aceitaram. A Bailarina nem nos deu opção, mesmo assim todos cuidam, tem o carinho de todo mundo — emociona-se Sabrina.

Tranquilidade na companhia dos soldados

Arquivo pessoal / Divulgação
No quartel, Tchoff ganha comida, banho e muito carinho de Sabrina Thomazoni (E) e de Juliana Santos OliveiraArquivo pessoal / Divulgação

Ao contrário de um cão policial, que ajuda os soldados no combate ao crime, Tchoff e Bailarina não tem uma função oficial no batalhão. Eles são apenas de estimação e todos ajudam a cuidar. Apesar de não atuaram na força policial, os cães ajudam os soldados de outra forma: sendo companheiros. 

— Eles fazem o que querem aqui, não têm uma rotina. Os companheiros deles trocam todo os dias porque o batalhão se reveza nos plantões. Então, eles sempre têm companhia e nós também — explica o capitão Amilton Turra de Carvalho.

A soldado Sabrina conta que Bailarina e Tchoff preferem ficar na casa da guarda, setor no batalhão que recebe as pessoas e funciona 24 horas. Os motivos, desconfia a policial, talvez sejam a presença dos soldados, das caminhas e do ar-condicionado na temperatura ideal para uma soneca.

— Eles trazem muita harmonia e descontração nos momentos que isso é possível. Nossa rotina policial tem atividades que exigem bastante concentração e que afetam o temperamento. Por isso, chegar no batalhão e ter eles, ajuda a descontrair. O animal é um excelente companheiro e contribui imensamente na parte afetiva, nos tornamos mais humanos — completa Turra.

Antonio Valiente / Agencia RBS
Tchoff e Bailarina ajudam a aliviar os momentos de tensão que envolvem a atividade dos policiaisAntonio Valiente / Agencia RBS

Muito apego

O 4º Batalhão de Polícia de Choque da Brigada Militar tem a característica diferenciada de ser uma tropa de pronta-resposta para crimes, atua em distúrbios civis, como revoltas, rebeliões em presídios, e realiza missões específicas, como a guarda e escolta de presos de alta periculosidade. Não é à toa que, ao voltar para o batalhão após uma operação, os soldados encontram nos companheiros caninos um momento de tranquilidade.

— É o momento de calmaria do dia. Durante o trabalho estamos sempre atentos e, quando vamos atuar, são momentos de tensão. Com os bichinhos ali é aquela tranquilidade com carinho — destaca Sabrina.

Eles nos tornam mais humanos

AMILTON TURRA DE CARVALHO

Capitão do 4° Batalhão de Choque

Do acidente de dezembro de 2019, a única lembrança que Tchoff carrega é uma patinha torta. Exceto isso, os colegas soldados trabalham para apagar as lembranças tristes do abandono do Tchoff e da Bailarina. Vale compensar com muito carinho e brincadeiras.

— Acredito que esse cuidado seja normal, porque temos esse compromisso com a natureza. Eles que nos adotaram, sentiram que o ambiente era favorável. Não é só pelo alimento, acredito que eles encontraram algo aqui como o carinho e o acolhimento — finaliza Turra.

Veja mais fotos da dupla canina:

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