Zona de Guerra

O dia 23 de fevereiro de 2019 ficará marcado pelos acontecimentos estranhos ocorridos na fronteira do Brasil com a Venezuela, quando dois pequenos caminhões tentaram, inutilmente, entrar no país vizinho com uma ajuda humanitária ridícula, pois suas cargas eram tão pequenas que não fariam diferença na vida dos venezuelanos.

Se fossemos um país sério e preocupado com a população venezuelana, nossos governantes deveriam ter organizado um comboio com centenas de caminhões, carregados de alimentos e medicamentos para auxiliar os milhões de venezuelanos que estão recolhendo restos de comida dos lixos.

Foi uma encenação de apoio, com alimentos cedidos, na maior parte, pelo governo americano e uma parcela de material brasileiro, somando-se a quatro caminhões enviados via Colômbia, mesmo com a decisão do governo venezuelano de fechar as fronteiras e não aceitar doações de países que reconheceram um presidente autodeclarado.

O pior de toda esta confusão foi que militares e população venezuelanos entraram em conflito nas fronteiras, com dezenas de mortos e feridos, sendo socorridos e levados para o território brasileiro, enquanto nossas autoridades diziam que não era um problema do Brasil, pois aconteceram numa zona neutra entre os dois países.

Na sequencia, vários países, inclusive o Brasil, mandaram representantes e numa reunião decidiram por sanções econômicas à Venezuela, sem cogitar a intervenção militar, relevando as mortes de venezuelanos pela Guarda Bolivariana, ocorridas nas fronteiras com Brasil e Colômbia.

A guerra já começou, pois quando militares matam pessoas de seu próprio país não se pode considerar algo dentro da normalidade, ainda mais quando o motivo é a fome e a doença da população, enquanto dois presidentes, Guaídó e Maduro, ficam negociando com diversos países, numa guerra ideológica, onde os maiores prejudicados serão os venezuelanos.

 

10, 100 ou 1000

Os números dos mortos em tragédias neste inicio de ano só tendem a aumentar, são tantas irresponsabilidades de nossos governantes e ganância de empresários que se preocupam com seus lucros, aliada a um sistema de punição que não funciona.

O Ninho do Urubu foi organizado para receber as categorias de base do Flamengo e servir de espaço para treinamentos, além de possuir alojamento para alguns jogadores, mas com um detalhe que só veio a público com a morte de dez meninos, pois não havia autorização para existir o alojamento.

Uma centena de mortos, no mínimo, foi o que restou da barragem de Brumadinho, onde uma estrutura de terra foi colocada de forma irresponsável, com laudos, possivelmente forjados, mostrando que estava tudo correto, porém depois da tragédia a verdade apareceu tudo estava irregular.

As investigações nos dois casos apontam para uma sequência de erros, com a benevolência de alguns órgãos públicos que não fizeram sua parte, deixando de fiscalizar aquilo que deveriam, permitindo omissão de empresários que não realizaram as obras e reparos que eram necessários.

Mas já tivemos outras tragédias, como a da boate Kiss, onde, entre mortos e feridos, chegamos a quase mil pessoas, o que gerou uma nova legislação para a prevenção de incêndios, mas que na prática não funciona, porque o alojamento do Flamengo foi uma nova armadilha.

Espero que no futuro os políticos e empresários tenham interesse em modificar uma cultura que tem por objetivo ajeitar os processos, evitar fiscalizações corretas, corromper funcionários públicos e burlar as regras que deveriam evitar as tragédias no país.

Outra tragédia atingiu apenas uma pessoa, o jornalista Ricardo Boechat que voava num helicóptero particular, sem autorização para fazer a viagem, ou seja, descumprindo uma série de regras.

Mais um número na estatística de mortes trágicas.

Férias especiais

Todos os anos as famílias organizam-se para as férias, deixando suas rotinas e deslocando para lugares onde existam espaços de lazer e descanso, procurando sair da rotina e conseguir momentos de descontração e alegria, longe da pressão do cotidiano.

Neste ano tive a oportunidade de conhecer a Argentina, junto com minha família, passando por várias cidades do Rio Grande do Sul, principalmente na região das Missões, fomos até as ruínas de São Miguel, podendo constatar a imponência de um patrimônio da humanidade.

Mas resolvi também explorar uma missão jesuítica no país vizinho, assim fui até San Ignacio, onde também existem ruínas, mas em melhores condições do que as de São Miguel, pois a destruição causada pelos espanhóis foi em menor escala.

Sabemos tão pouco sobre a importância do trabalho dos jesuítas, que conseguiram erguer 30 missões, no Paraguai, Argentina e Brasil, reorganizando sociedades indígenas, aproveitando o conhecimento dos índios na lida com a agricultura e as suas habilidades no trabalho com madeira e outros materiais do seu habitat.

Observar as ruínas de uma missão é algo impressionante, podendo ter ideia da estrutura social e econômica que funcionava naqueles espaços, com uma área destinada às moradias, outra para a realização de trabalhos diversos, além do espaço das atividades culturais e religiosas.

Tudo foi planejado para que a missão fosse autossuficiente, sendo possível verificar o cultivo de diversos alimentos, criação de gado e também a confecção de materiais necessários para a subsistência, construção e manutenção de todo o complexo de edificações.

Assim pude aproveitar para conhecer a história das missões, juntamente com meus familiares, aprendendo que um sistema comunitário, onde todos participavam com seu trabalho e tinham seu espaço naquelas sociedades, funcionava muito bem.

Pena que os reinos europeus tenham decidido acabar com tudo, de forma violenta, expulsando os índios de suas terras e retirando os jesuítas da América, acabando com todo um trabalho de valorização do ser humano, que funcionou muito bem por mais de três séculos.

Lama assassina

O rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, de propriedade da mineradora Vale, trouxe destruição e morte na região da cidade de Brumadinho, em Minas Gerais, contabilizando 110 mortos e mais de 300 desaparecidos desde o dia 25 de janeiro de 2019, quando houve o desmoronamento da parede e a lama deslizou.

Foram soterradas diversas estruturas da Vale, além de fazendas e plantações, derrubando pontes e destruindo estradas, levando dejetos da extração de minérios para o rio Paraopeba, sendo possível chegarem até a foz do rio São Francisco, o que poderá levar toda contaminação aos estados do Nordeste.

Em Mariana, a barragem do Fundão também rompeu em 2015, levando devastação e tragédia, com lama contaminada por mais de 500 quilômetros, chegando ao Espírito Santo, onde manchou de marrom o mar daquele estado, com 19 mortes confirmadas naquele desastre.

Minas Gerais possui o maior complexo de exploração de minério de ferro do Brasil e a utilização de barragens para depósito de dejetos é utilizada em larga escala, tornando o entorno das minas possíveis cenários de novas tragédias, devido a esta tecnologia não é utilizada em outros países.

Por lá a terra retirada das minas, depois de separada dos minérios, é reaproveitada e são replantadas árvores nas regiões de mineração, recuperando o equilíbrio do meio ambiente, enquanto que no Brasil as mineradoras acumulam a lama, estocando em barragens inseguras, deixando as regiões exploradas com imensas áreas devastadas e sem vegetação.

As autoridades reafirmam, pois já fizeram isso na tragédia de Mariana, que agora a fiscalização irá mudar, a legislação será mais rígida, com equipes analisando todas as barragens brasileiras, numa reprodução de tudo que já foi dito em 2015. Até agora nenhum dos responsáveis pelo desastre de Mariana foi condenado, o que pode nos fazer pensar o mesmo poderá ocorrer em Brumadinho.

No fim das contas a lama poderá ser declarada a assassina de tantos inocentes.