“O policial não pode só ser visto como aquele que anda com fuzil”, diz comandante-geral da BM um dia antes de deixar o cargo

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Após 34 anos na corporação, coronel Rodrigo Mohr foi indicado para vaga de desembargador do Tribunal de Justiça Militar

No gabinete do comando-geral da BM, coronel Rodrigo Mohr nesta quarta-feira (31), um dia antes de deixar o cargoMateus Bruxel / Agencia RBS

GZH

No começo da madrugada de 1º de novembro do ano passado, o comandante-geral da Brigada Militar, coronel Rodrigo Mohr, acordou com a ligação de um oficial do Litoral Norte. Do outro lado da linha, foi informado que, naquele momento, um grupo de 30 criminosos sitiava Criciúma e que a cidade catarinense, localizada a 95 quilômetros da divisa com o Rio Grande do Sul, estava sem policiais de reserva. 

Enviou homens do Litoral e da Capital para a divisa catarinense, mas o ataque ao Estado vizinho disparou outro alerta: a necessidade de criação de mais um Batalhão de Choque na única região do RS que ainda não tinha o reforço para ações de emergência, o que diminuiriam as chances de ataque semelhante ser reproduzido em território gaúcho. Com a criação do 6ºBPChoque, em Uruguaiana, a BM terá ainda neste semestre efetivo reserva com capacidade de deslocar 30 homens para chegar em até uma hora e meia em qualquer ponto do mapa do RS. 

Esse foi um dos episódios de noite insone do coronel que deixará o principal posto de comando da BM nesta quinta-feira (1º). Aos 51 anos, vai assumir uma vaga de desembargador do Tribunal de Justiça Militar do Rio Grande do Sul, onde poderá atuar até os 75. Na corporação, a promoção é considerada um reconhecimento pelo desempenho de Mohr no cargo, que integra a cúpula da segurança pública no RS. O grupo desde 2019 vem conseguindo reduzir os principais indicadores criminais no Estado. A vaga de Mohr será preenchida por seu braço direito durante gestão, o atual subcomandante coronel Vanius Cesar Santarosa. 

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Coronel Rodrigo Mohr no QG da Brigada Militar no Centro HistóricoMateus Bruxel / Agencia RBS

Em um ano e cinco meses à frente de 18 mil policiais militares, Mohr traçou estratégias para modernizar a instituição, com trabalho não só focado em ações ostensivas, mas também direcionado à análise de informações de inteligência, dados, estatísticas e aproximação com a academia. Uma dessas iniciativas foi a abertura do Centro de Inovação e Pesquisa da Brigada Militar que, dentro da PUCRS, pretende usar algoritmos, ciência de dados e inteligência artificial para antecipar crimes.

Em 34 anos de BM, passou 20 atuando no policiamento ostensivo. Na época em que comandou o 9º BPM, que concentra a maior diversidade de ocorrências da Capital, participava de 50 grupos de WhatsApp com moradores da área central. Para-choque de todo tipo de reclamação, identificou principalmente o temor pelo roubo de veículo _ que teve recorde de ocorrências entre 2016 e 2017. Foi no 9º BPM que começou a implementar o trabalho de inteligência para reduzir o indicador, identificando quadrilhas e direcionando a atuação dos policiais.

— Assim se resolve problemas que no passado precisavam de 30 homens. Segurança não é fazer e acontecer e dizer que bandido bom é bandido morto. Envolve inteligência, integração, estudar o que está acontecendo, entender os motivos, em um trabalho que também é silencioso.

Mateus Bruxel / Agencia RBS
Coronel vai assumir vaga de desembargador do Tribunal de Justiça MilitarMateus Bruxel / Agencia RBS

Essa experiência o levou ao Comando do Policiamento da Capital (CPC), até ser escolhido para o cargo mais cobiçado da corporação. Do principal gabinete do QG da BM na Rua dos Andradas, no Centro Histórico, perseguiu a obsessão por reduzir os latrocínios (roubo com morte) e se orgulha dos resultados da Operação Angico, que passou a trabalhar para antecipar ação de ladrões de banco no Interior. Em conversa com GZH um dia antes de deixar o comando, avaliou a responsabilidade que o cargo carrega:

— No comando-geral, sou a BM. Tudo que acontece o dedo vira para o comandante. É muito pesado. Tudo que se passa na BM te afeta e a responsabilidade é tua. A tropa toda te olha. O tempo todo você é pressionado.

No comando-geral, sou a BM. Tudo que acontece o dedo vira para o comandante. É muito pesado. Tudo que se passa na BM te afeta e a responsabilidade é tua. A tropa toda te olha. O tempo todo você é pressionado.

CORONEL RODRIGO MOHR

Comandante-geral da BM

O peso ganhou contornos mais intensos durante a pandemia que, além de contaminar parte da tropa, exigiu o cumprimento de decretos antipáticos de redução de circulação e fechamento de comércios para conter a propagação do coronavírus.

— Nesse caso acabamos lidando não com o criminoso, mas com a sociedade e isso até é mais pesado. Com criminoso temos protocolos e um padrão. Agora, com a sociedade, trabalhador e empresário, é mais complexo ter esse tipo de trabalho, nos exige muito mais.

Piores momentos

Apesar do desafios da pandemia, os cinco piores momentos da gestão, na avaliação do próprio Mohr, não têm relação com o vírus. Dois deles foram as mortes dos soldados Marciele Renata dos Santos Alves, 28 anos, em operação em novembro de 2019, eJhonatan Grendene Caverzan Maximovitz, 28, ao ser atropelado por criminosos em Erechim em março deste ano. 

Outros três envolvem episódios em que a conduta de PMs foi questionada, como na morte do engenheiro Gustavo dos Santos Amaral, 28, baleado quando parou em uma barreira, na RS-324, em Marau, no Norte, em abril de 2020. Amaral foi confundido com um bandido. Outra abordagem polêmica que matou um civil aconteceu em maio do ano passado, quando um carro de aplicativo em Gravataí, conduzido por um motorista foragido, foi atingido por três tiros. A ação acabou com a morte da costureira Dorildes Laurindo, 56. E, por último, o assassinato de João Alberto Freitas, em novembro do ano passado, no Carrefour, que teve o envolvimento de um PM temporário.

— É algo que a gente não quer, não espera e não fomos treinados para isso. A partir daí acontece uma desumanização do policial. Há uma série de acusações que generalizam. Esse resultado nunca é nossa intenção.

A sobriedade que o cargo exige, especialmente nos momentos mais agudos, o coronel obteve na literatura. Formado em Letras, tem por hábito ler dois livros ao mesmo tempo e desde que assumiu o comando-geral prefere ficção. No principal cargo da BM, revisitou pela terceira vez as páginas da série O Tempo e o Vento, de Erico Veríssimo. Quando fala sobre liderança e o exemplo que os oficiais devem passar à tropa, cita conceitos de Martin Luther King e a importância de não perder a humanidade.

— O policial não pode só ser visto como aquele que anda com fuzil debaixo do braço. Sempre trabalhei olhando para fora, para melhorar a vida das pessoas, da comunidade e do soldado. E disso vem o retorno. Cheguei onde o cheguei olhando para fora.

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