Quase 300 policiais assinaram termo de recusa à vacina no RS

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Tanto na Brigada Militar quanto na Polícia Civil, medida não refletiu em troca ou remanejamento para funções que não tenham contato direto com a população

Aplicação no Hospital da Brigada Militar, durante primeiro dia da vacinação de policiais militares em Porto Alegre, em 5 de abrilMateus Bruxel / Agencia RBS

JENIFFER GULARTE GZH

Com acesso a vacina contra covid-19 desde abril, 295 policiais gaúchos assinaram termo de recusa à imunização no Rio Grande do Sul, abrindo mão da aplicação das doses. Com a conclusão do esquema vacinal nos órgãos de segurança, foram contabilizados 262 casos de PMs que se negaram a receber o imunizante na Brigada Militar e 33 na Polícia Civil. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública e foram obtidos por GZH via Lei de Acesso à Informação (LAI).

Os números apontam que o total de imunizados na BM chega a 14.710 policiais militares — tanto da ativa quanto do Corpo Voluntário Militar Inativo. Já na Polícia Civil, são 4.839 servidores com as duas doses. Percentualmente, os policiais que formalmente recusaram a vacina na BM correspondem a 1,78% do total de imunizados. Na Polícia Civil, os não vacinados são 0,68%. Via LAI, a SSP informou 12 Termos de Recusa entre policiais civis. Em contato com a instituição, o número foi atualizado para 33.

Consultado pela reportagem, o Palácio Piratini informou que não há obrigatoriedade de vacinação para os servidores do Estado. No RS, também não há lei que obrigue a imunização, mas o Estado adotou o passaporte vacinal, que, desde o dia 18, exige comprovante de vacinação para frequentar festas e participar de alguns eventos. Tanto na BM quanto na Polícia Civil, a assinatura do termo de recusa não refletiu em troca ou remanejamento para funções que não tenham contato direto com a população.

O comandante-geral da BM, coronel Vanius Santarosa, afirma que os batalhões fazem um trabalho de motivação para que a imunização avance na totalidade da tropa. Há 60 dias, em videoconferência com comandantes regionais, foi reafirmada a necessidade de sensibilizar os policiais ainda não imunizados sobre a repercussão que o coronavírus pode ter na vida profissional e familiar de cada um. Ainda que siga valores de disciplina e hierarquia, a cúpula da corporação não obriga o policial a aderir a imunização.

— Não tem como obrigar a pessoa a tomar vacina. O que exigimos é usar máscara, álcool gel e distanciamento durante o serviço. Agora, não tem como obrigar a vacinar, isso fere os direitos individuais das pessoas. O próprio passaporte vacinal já é uma forma de pressão — afirma coronel Santarosa.

A ampla adesão da vacinação na tropa derrubou as contaminações e internações no Hospital da Brigada Militar (HBM) em Porto Alegre. Em 25 de outubro, havia 11 casos positivos no RS e nenhuma internação. A média de novas contaminações diárias gira em torno de quatro a 12 em todo Estado — nos meses mais agudos da pandemia, como março e abril de 2021, chegava a 300 novos casos/dia.

— Antes da vacina tínhamos UTI lotada e muitos policiais infectados, agora está praticamente zero. Tem policiais que contraem mas com sintomas leves — avalia Santarosa.

Vacinado com as duas doses, o coronel diz que conversou com policiais que recusaram a imunização e acredita que a desinformação influencia na decisão de abrir mão da proteção:

— No começo, durante a primeira dose, a recusa era maior. Fomos fazendo a motivação e a grande maioria acabou aderindo. Havia mais desconfiança no começo, medo de reação e tudo foi se desmistificando. É uma pequena quantia que não se vacinou. E nós, os comandantes, continuamos em campanha para que se faça a vacina, mesmo que a doença esteja de certa forma sob controle, mas não estamos livres dela.

Os policiais chamados para trabalhar no Litoral durante a Operação Golfinho, no próximo verão, também estão sendo sensibilizados a se vacinarem. De acordo com Santarosa, o maior número de policiais que não se vacinaram está concentrado entre os praças de Porto Alegre e Região Metropolitana — onde também está o maior efetivo no RS.

Na avaliação do presidente da Associação Beneficente Antonio Mendes Filho, dos servidores de nível médio da BM e dos Bombeiros (Abamf) José Clemente da Silva Corrêa, a falta de conhecimento, opção religiosa ou mesmo negacionismo à ciência podem interferir na decisão do policial não se vacinar:

— A ciência nos comprova que a vacina é a única forma de estarmos protegidos. Nossa atividade é de risco em todos os sentidos, durante a pandemia vários colegas perderam a vida e vimos que após a vacina, tivemos ótimos resultados. Entendo que deveria ser obrigatório em defesa da pessoa e da coletividade. A vontade de um não pode ser nociva para sociedade.

Com percentual de adesão à vacina maior que o da BM, a chefe de polícia Nadine Anflor atribui o baixo índice de não imunizados na Polícia Civil à conscientização e convencimento feito com os agentes. Há quatro dias, as contaminações por coronavírus estão zeradas. Durante a pandemia, sete policiais morreram pela doença. Dos 33 que assinaram o termo de recusa, uma policial civil faleceu por covid-19.

— A sensação que tenho é de que a Polícia Civil se vacinou em massa. O número de não vacinados não me preocupa tanto, mas queria que fosse cem por cento. Fizemos de tudo. Não houve resistência nem no início. A maioria dos que morreram foi antes da vacina ou infectado poucos dias após primeira dose. Nenhum morreu depois das duas doses — avalia Nadine.

Mateus Bruxel / Agencia RBS
Vacinação de policial civil no Palácio da Polícia, em Porto Alegre, em 5 de abrilMateus Bruxel / Agencia RBS

A vacinação de policiais civis de Porto Alegre ocorreu com hora marcada dentro do Palácio da Polícia com enfermeiros da Secretaria Municipal de Saúde.

— Foi feito dentro do Palácio para institucionalizar a vacinação e mostrar o quanto é importante — pontua a delegada.

Vice-presidente do Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do RS (Ugeirm-Sindicato), Fábio Castro também cita a desinformação como determinante para as recusas ao imunizante. Por ser um cidadão como qualquer outro, o policial não está imune à fake news, pontua:

— Não tive contato com nenhum policial que tenha negado a vacina. Há militância em torno do tema, politizaram de forma negativa, mas acredito que com educação, conversa e diálogo pode-se convencer a todos da importância da imunização. O policial está superexposto, tem contato com todo tipo de pessoa e em todo tipo de situação.