Sete anos e nenhum feminicídio entre 2 mil mulheres protegidas: o trabalho da Patrulha Maria da Penha em Caxias do Sul

395

Mais que segurança, equipe policial oferece conforto e apoio emocional as vítimas de violência doméstica

Visitas periódicas verificam o cumprimento da medida protetiva e oferecem conselhosMarcelo Casagrande / Agencia RBS

PIONEIRO

Em sete anos, a Patrulha Maria da Penha acompanhou 2 mil mulheres com medidas protetivas em Caxias do Sul. A equipe da Brigada Militar (BM) tem orgulho de dizer que nenhuma mulher protegida foi vítima de feminicídio. Atualmente, a patrulha visita 166 mulheres por mês na cidade. Em 2021, três homens foram presos em flagrante por desrespeitarem a ordem judicial.

O objetivo da Patrulha Maria da Penha é verificar se o agressor está realmente cumprindo a medida protetiva imposta pelo Poder Judiciário. Na prática, as visitas dos policiais militares são ainda mais importantes. Eles lembram que esta mulher não está sozinha. Ao escutar as vítimas, os PMs oferecem conselhos, relatam outras histórias semelhantes e ressaltam a importância de manter este agressor afastado como determinado pela Justiça.

Esta acolhida se mostra a cada atendimento. A violência doméstica é costumeiramente relacionada a maridos e namorados, mas também acontece com familiares, como filhos e netos. A vontade de uma mãe é sempre perdoar o filho, por isso os PMs conversam para lembrar o estágio complicado em que a relação estava. É o caso de uma mulher moradora da Zona Norte, que é atendida desde dezembro.

— É bom saber que não se está sozinha. Nunca pensei que passaria por isso, ter uma medida protetiva, mas é um trabalho bem feito. O agressor precisa ser afastado da gente. Existe a lei e a patrulha para isso. A minha situação é bem complicada porque foi um filho adotivo que fez isso comigo, mas a lei tem que ser seguida — afirma.

Esse lado humano do atendimento policial também é destacado por outra vítima de violência doméstica. Esta mulher chegou a procurar a polícia 17 anos atrás, mas não sentiu o suporte necessário. Na época, ainda não havia a Lei Maria da Penha, publicada em 2006, nem a Delegacia da Mulher. Agora, cinco meses após a medida protetiva, se sente mais leve para viver e realizar os desejos mais simples, como plantar flores no seu jardim.

— Eles (policiais) fazem esse papel de me dar um apoio emocional e de dar segurança. Eu sinto que estou sendo cuidada. O trabalho faz a gente ter uma visita, porque nós (vítimas) temos receio de procurar pessoas e a sociedade exclui. Não somos mais a casada, é a separada. Não é fácil, porque continuo sendo mãe, precisando trabalhar e me reencontrar como pessoa. Fui anulada por muito tempo, minhas ideias não tinham validade. “Te contenta em lavar, passar e cozinhar”.  Tive que brigar para estudar e ter uma profissão, mas eu não desisti — relata.

Por mês, 40 mulheres são agredidas em Caxias


A Patrulha Maria da Penha não acompanha todas as medidas protetivas, apenas aquelas que são apontadas pela Justiça como casos graves. Em casos de urgência, a orientação é que seja acionado o 190, desta forma a sala de operações da BM irá deslocar os policiais mais próximos do local para atendimento.

Caxias do Sul teve média de 40 agressões físicas e 63 ameaças contra mulheres por mês em 2020. No primeiro bimestre de 2021 foram registrados 116 casos de lesão corporal e 212 ameaças. A maior cidade da Serra contabilizou seis feminicídios nos últimos dois anos, segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP).

A Patrulha Maria da Penha surgiu em 2012, ano que teve 91 mulheres assassinadas (apenas 16 possuíam medida protetiva) no Rio Grande do Sul e a BM sentiu a necessidade de reforçar a sua atuação junto a rede de proteção. O acompanhamento policial acabou por responder as críticas que apontavam que a medida protetiva era apenas um papel, portanto a mulher continuava exposta ao agressor que não ficava preso.

Responsável pela patrulha em Caxias do Sul, a tenente Mileide Ramos fez parte destes sete anos de atendimentos. A policial afirma que esta é uma das missões mais gratificantes da Brigada Militar, justamente por ajudar estas mulheres a se reerguerem.

—  Temos visto um resultado muito bom. Já acompanhamos mais de 2 mil mulheres e nunca tivemos caso de uma protegida ter sofrido um feminicídio. O objetivo da Patrulha é manter a integridade física e psicológica desta vítima. Que ela seja efetivamente protegida. É um trabalho que dá muito certo — avalia.

ONDE BUSCAR AJUDA

  • Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam): (54) 3220-9280
  • Patrulha Maria da Penha: (54) 98423-2154 (o número está disponível para ligações e mensagens de WhatsApp)
  • Central de Atendimento à Mulher: telefone 180
  • Coordenadoria da Mulher: (54) 3218-6026
  • Centro de Referência para a Mulher: (54) 3218-6112