“Vamos lutar sempre por ele”, diz mãe de PM baleado há sete meses durante assalto em Criciúma

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Jeferson Luiz Esmeraldino, 33 anos, que recebeu alta em fevereiro, segue acamado e sem se comunicar. Família e colegas tentam movem ação solidária para arrecadar recursos

Esmeraldino está em uma UTI montada na sala da casa de sua mãeArquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

GAUCHAZH

Em dezembro, dias após ter sido baleado por criminosos que atacavam Criciúma, no sul de Santa Catarina, o policial militar Jeferson Luiz Esmeraldino apresentou melhora. Do hospital, por videochamada, conseguiu falar com Sandra Aparecida Nunes, 55 anos.

— Mãe, vai dar tudo certo, ora por mim — disse, esperançoso.

O soldado tomou sopa e brincou que queria sorvete. Relatou sentir fortes dores, em razão dos ferimentos causados pelo disparo de fuzil que transfixou o colete e perfurou seu abdômen. O projétil havia atingido órgãos como fígado, pulmão, estômago e baço. Logo após a melhora, antes que a mãe conseguisse vê-lo pessoalmente, teve parada cardiorrespiratória, que resultou em severas lesões neurológicas. Sete meses depois, Sandra se agarra nas frases do caçula.

Em fevereiro, mesmo mês em que recebeu alta, ele completou 33 anos. A mãe, que é técnica de enfermagem, deixou o emprego de lado e passou a se dedicar somente ao filho. O policial militar segue acamado, em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) montada na sala da casa dela no município de Tubarão  — onde está há cinco meses. Emagreceu cerca de 30 quilos e se alimenta somente por sonda. Sem conseguir se comunicar, passa por tratamentos diários.

— As palavras dele, aquele pedido, nunca vão sair da minha cabeça. O tiro foi nele, mas a dor está em todos nós. Atingiu a família inteira. Ele é oposto do que era. Saiu um e voltou outro, com algumas semelhanças. Não é fácil — diz.  

No cômodo, além da maca, foram instalados aparelhos que precisam permanecer ligados o dia inteiro. Sandra se preocupa com a fiação antiga da casa e com o frio, que passou a trazer transtornos e até riscos de saúde para o filho. Sonha poder construir uma edícula, na área dos fundos da moradia, mais adequada para comportar a UTI e abrigar os profissionais de saúde. O governo de Santa Catarina fornece o atendimento diário de técnicos de enfermagem, fisioterapeuta e fonoaudiólogo.

Mas a estimativa é de que a obra custe cerca de R$ 200 mil. Com altas despesas, com contas de água e luz, alimentação, higiene e transporte, a família não tem condições de arcar com a construção. Estão mobilizados em campanha, chamada Pelotão da Solidariedade, com apoio dos colegas de Esmeraldino na PM, para tentar arrecadar os valores por meio de doações.

— Como mãe, sofro de não poder dar conforto. Amor, carinho e cuidado têm bastante. Mas essa sala é muito fria. A janela dá direto para a estrada. Ele já teve uma infecção pulmonar, em razão do frio. Queremos abrir ao lado do muro um portão onde a ambulância possa entrar. Hoje em dia, temos de ir com ele até a estrada, às vezes na chuva — diz Sandra.

Evolução

A mãe considera que a evolução que o filho teve nesse período foi a “passos de formiguinha”, com altos e baixos. Desde que saiu do hospital, segue sem conseguir andar ou se comunicar por meio da fala, já passou por infecções e novos procedimentos. No início, permanecia com o olhar mais estático, mas com o tempo passou a mover um pouco mais. Os movimentos de braços e pernas ainda só acontecem de forma espontânea, enquanto está dormindo. Sandra relata que consegue, por vezes, que ele responda piscando os olhos.

— Ele tirou liquido do cérebro. Achamos que podia dar resposta, ver melhora, mas não teve. Ele passa muito tempo sonolento. Às vezes eu pergunto “filho, se está me ouvindo, pisca”. Aí ele pisca. Os médicos não afirmam que vai ter uma melhora. Dizem que é o tempo, muita fisioterapia, fono — detalha a mãe, que passa por tratamento psiquiátrico para superar o trauma.

Sandra conta que o filho é evangélico e costumava frequentar os cultos. Policial apaixonado pela profissão, era também pai dedicado de uma menina de cinco anos. A avó conta que a filha dele, que recebe suporte psicológico, chora com frequência e pergunta porque fizeram isso com o pai.  

— O amor da vida dele era a filha. Ela sofre muito também. Nós todos sofremos — diz Sandra.

Antes de ser alvejado, Esmeraldino morava sozinho e tinha uma vida ativa. Cuidava da alimentação, fazia natação e pescava com arpão no fundo do mar. Em casa, a mãe armazena dezenas de medalhas que o filho ganhou ao longo de anos em competições de jiu-jitsu. Quando criança e adolescente, era aluno exemplar, com notas altas. Na juventude, fez cursos técnicos e cursou Administração.

Em 2016, Esmeraldino realizou o sonho de se tornar policial. Ao longo de dois anos, fez parte do Pelotão de Patrulhamento Tático (PPT), a unidade especializada da corporação. A mãe muitas vezes pediu que ele deixasse a profissão de lado porque tinha medo. Mas o filho, que atuava no 9º Batalhão de Polícia Militar de Criciúma, respondia que não podia, porque gostava demais.

Na noite de 30 de novembro do ano passado, ele estava de serviço, quando assaltantes atacaram o município de Criciúma. Dezenas de criminosos sitiaram a cidade e aterrorizaram moradores. Uma das estratégias dos ladrões foi atacar a sede do 9º BPM. Além de disparos, que deixaram marcas nas paredes, em frente ao prédio, os bandidos incendiaram um caminhão, para impedir a saída dos policiais. O soldado se aproximava em uma viatura para prestar apoio, quando foi baleado.

— Dou graças a Deus por ter me dado ele de volta. Por me permitir ter ele respirando do meu lado. Ele é meu ar. Vamos lutar sempre por ele, o que tiver de fazer, faremos — diz a mãe.  

Investigação

Marco Favero / Agencia RBS
Criminosos atacaram 9º Batalhão de Polícia Militar de CriciúmaMarco Favero / Agencia RBS

No ataque, considerado o maior da história do Estado, cerca de R$ 125 milhões foram levados da tesouraria regional do Banco do Brasil. A apuração que tenta identificar os criminosos responsáveis pelo assalto e por balear o soldado segue em andamento e é mantida em sigilo pela Polícia Civil.

Num primeiro inquérito, foram indiciadas 16 pessoas, que atualmente respondem por organização criminosa. Todos tiveram prisão preventiva decretada pelo Judiciário e três estão foragidos. Segundo nota do Ministério Público e da Polícia Civil, dos 16 denunciados, pelo menos seis têm relação direta com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O possível envolvimento de integrantes do grupo criminoso paulista, considerado a maior facção do Brasil, já era apontado pela polícia desde o começo das investigações.

Como ajudar o PM

É possível fazer depósitos ou transferências em nome de Sandra Aparecida Nunes (CPF: 966.611.789-49). A conta poupança, na Caixa Econômica Federal, é da agência 0425, número 935972616, dígito verificador 3 e tipo 1. Também é possível usar a chave Pix: CPF 96661178949 

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