
Há datas que pertencem aos calendários. Outras pertencem à memória de um povo. O 7 de Setembro está entre estas últimas.
Naquela tarde de 1822, às margens do Ipiranga, um gesto político deu forma pública a algo que vinha amadurecendo havia muito tempo. A Independência não nasceu inteira naquele instante. Antes do brado de D. Pedro, houvera ideias, conspirações, prisões, sacrifícios e sonhos de liberdade. Houve a inteligência política de José Bonifácio, a atuação decisiva de Maria Leopoldina e a mobilização de brasileiros que já não aceitavam que o destino desta terra continuasse sendo decidido do outro lado do Atlântico.
E mesmo depois do Ipiranga a Independência ainda precisou ser conquistada.
Na Bahia, homens e mulheres combateram até 1823. Ali estiveram soldados e gente simples, negros, indígenas, libertos e escravizados. Ali esteve Maria Quitéria, vestindo uma farda que a sociedade de seu tempo dizia não lhe pertencer. E tantos outros cujos nomes desapareceram, embora seus sacrifícios tenham ajudado a escrever a história que hoje chamamos de nossa.
Talvez esteja justamente aí o significado mais profundo do 7 de Setembro.
A Independência nunca foi obra de um homem apenas. Nem de um único dia.
Uma nação é feita também pelos desconhecidos.
Pelos soldados que atravessaram campos e fronteiras e pelos que jamais regressaram para casa. Pelos homens e mulheres que, em diferentes épocas, vestiram uma farda e aceitaram o compromisso silencioso de servir. Pelos que defenderam nossas fronteiras, socorreram populações atingidas por tragédias, enfrentaram guerras, epidemias, enchentes e incêndios. Muitos nunca terão estátuas. Talvez nem uma rua com seus nomes. Ainda assim, o Brasil lhes deve alguma coisa.
Mas uma Pátria tampouco se sustenta apenas pela força das armas.
Ela vive nas mãos do agricultor que começa o trabalho antes de o sol nascer. Na professora que entra numa sala de aula acreditando que ainda é possível transformar destinos. No médico de uma pequena cidade. No policial que sai de casa sem saber o que encontrará pela frente. No trabalhador que enfrenta diariamente o caminho até o emprego. No cientista, no empresário, no servidor público. Em todos aqueles que, no silêncio de suas rotinas, ajudam a manter este país de pé.
Talvez seja esta a imagem mais bonita do Brasil: milhões de pessoas sustentando todos os dias um país que raramente percebe seus nomes.
Por isso, celebrar o 7 de Setembro não significa fechar os olhos para nossas imperfeições. Patriotismo não é acreditar que o país não possui defeitos. É amá-lo o suficiente para desejar corrigi-los.
Ainda carregamos desigualdades antigas, intolerâncias que nos dividem, violências que nos assustam e injustiças que nos envergonham. A Independência proclamada em 1822 não resolveu tudo. Nenhuma independência resolve.
Cada geração recebe a sua parte da obra inacabada.
Aos brasileiros de 1822 coube romper os vínculos coloniais. A outros coube lutar pela abolição da escravidão, construir a República, ampliar direitos e consolidar a democracia. À nossa geração cabe uma tarefa igualmente difícil: aprender a discordar sem transformar o adversário em inimigo e compreender que nenhum projeto de poder pode ser maior do que o próprio país.
Porque governos passam. Ideologias passam. Lideranças passam. O Brasil permanece.
Permanece na bandeira diante de uma escola do interior. No hino cantado por crianças que talvez ainda não compreendam inteiramente suas palavras. Na lembrança dos que partiram e na esperança dos que chegam. Permanece nessa extraordinária diversidade de rostos, sotaques, crenças e costumes que, apesar de todas as diferenças, chama esta mesma terra de casa.
Duzentos e quatro anos depois daquele setembro, talvez seja essa a homenagem que devemos aos brasileiros de ontem: entregar aos brasileiros de amanhã um país um pouco melhor do que aquele que recebemos.
Não precisamos de heroísmos cotidianos. Precisamos de responsabilidade, coragem, decência e alguma generosidade entre nós.
Há mais de dois séculos alguém proclamou que o Brasil deveria ser senhor de seu próprio destino.
Desde então, a História nos deixou uma pergunta muito mais difícil: que destino queremos dar ao Brasil?
A resposta não será dada às margens de um riacho, nem escrita por uma única geração.
Ela está sendo escrita agora. Por soldados e civis. Por homens e mulheres. Por nós.
E continuará sendo escrita por aqueles que ainda virão.
Porque, no fim, a Pátria talvez seja exatamente isso: uma herança recebida dos que vieram antes, confiada por algum tempo às nossas mãos e que temos o dever de entregar, inteira e digna, aos que virão depois.

