Há uma curiosidade sobre o mar. Ele nunca faz alarde da importância que tem. Está sempre ali, silencioso, ocupando o horizonte, enquanto as cidades seguem suas rotinas sem lhe dedicar muita atenção. Talvez por isso também passem despercebidos aqueles que o vigiam.
Neste 8 de agosto, o 5º Distrito Naval, sediado em Rio Grande, completa oitenta anos. A data convida a recordar uma organização militar. Mas convida, sobretudo, a refletir sobre algo maior: a importância das instituições que trabalham para que a normalidade exista.

Vivemos um tempo em que quase tudo parece depender da visibilidade. O que não aparece nas telas, muitas vezes parece não existir. Entretanto, algumas das estruturas mais importantes de um Estado caminham na direção oposta. Quanto melhor desempenham sua missão, menos se tornam notícia.
É assim com a Marinha.
Quando um navio cruza o Atlântico transportando alimentos, medicamentos ou máquinas; quando um pescador retorna em segurança para casa; quando um pedido de socorro é atendido em meio a uma tempestade; quando uma embarcação estrangeira respeita as normas brasileiras; quando o Porto do Rio Grande mantém abertas as portas do comércio exterior, dificilmente alguém pensa na complexa engrenagem que torna tudo isso possível.
Mas ela existe.
E, no Sul do Brasil, uma parte importante dessa responsabilidade repousa há oito décadas sobre o 5º Distrito Naval.
Não é coincidência que sua sede esteja justamente em Rio Grande. A cidade nasceu voltada para o mar. Ali o Brasil consolidou uma de suas principais portas para o Atlântico e dali também veio Joaquim Marques Lisboa, o Marquês de Tamandaré, cuja vida ajudou a moldar a tradição naval brasileira. A história parece ter unido, no mesmo lugar, a memória e a missão.
O estrategista naval Alfred Thayer Mahan costumava sustentar que a prosperidade de uma nação depende, em grande medida, da segurança de seus mares. A história lhe deu razão inúmeras vezes. Dos grandes impérios marítimos do passado às disputas geopolíticas do presente, controlar rotas, proteger portos e assegurar a liberdade da navegação sempre significou muito mais do que exercer poder militar. Significou proteger a própria vida econômica de um país.
O Brasil nem sempre percebe isso. Somos uma nação continental que, paradoxalmente, costuma voltar os olhos para o interior e esquecer que o oceano é um dos pilares de nossa soberania. Mais de noventa por cento do comércio exterior brasileiro percorre as rotas marítimas. Boa parte da riqueza nacional cruza diariamente as águas do Atlântico Sul antes de chegar aos mercados do mundo.
Por trás desse fluxo permanente existe uma presença discreta, formada por homens e mulheres que dificilmente conheceremos pelo nome. São militares que enfrentam madrugadas frias, tempestades, longos períodos embarcados e incontáveis horas de preparação para que, quando forem chamados, estejam prontos. Não trabalham para serem lembrados. Trabalham para que outros possam viver, produzir e navegar com segurança.
Talvez seja essa a marca das instituições verdadeiramente sólidas. Elas não se afirmam pelo espetáculo, mas pela constância. Não dependem dos aplausos do momento, porque sabem que sua legitimidade nasce do serviço prestado ao longo do tempo.
Oitenta anos depois de sua criação, o 5º Distrito Naval permanece fiel a essa vocação. Modernizaram-se os navios, evoluíram os sistemas de vigilância, multiplicaram-se os desafios impostos pelo crime organizado, pela proteção ambiental e pelas novas exigências da segurança marítima. Mas a essência continua a mesma: servir ao Brasil com profissionalismo, disciplina e permanente estado de prontidão.
Em uma época marcada pela velocidade das notícias e pela efemeridade das atenções, vale recordar que algumas presenças só são percebidas quando deixam de existir.
Felizmente, as sentinelas do nosso horizonte continuam em seus postos.
E talvez essa seja a mais bela homenagem que se pode prestar aos oitenta anos do 5º Distrito Naval.

