Dos Abas Larga e Pedro Paulo ao algoritmo – A missão que atravessa o tempo

Reflexões sobre quase dois séculos de policiamento ostensivo e a permanência da alma brigadiana.

A Brigada Militar aproxima-se dos seus dois séculos. Poucas instituições brasileiras atravessaram tantas transformações preservando traços tão reconhecíveis de sua identidade. Cada geração recebeu uma Brigada diferente da anterior, mas nenhuma recebeu uma instituição inteiramente nova, porque o fio que une o cavaleiro do século XIX ao brigadiano que hoje opera sistemas digitais é o mesmo: a disposição de receber uma missão que não criou e fazê-la sua.

Criada em 1837, a Brigada nasceu como força de campanha. O cavalo foi, por muitas décadas, o seu meio de deslocamento. O cuidado com o animal, o primeiro gesto da manhã. O som dos cascos sobre a terra batida, o galpão recebendo a tropa ao fim do dia, o mate amargo passando de mão em mão, eram cenas comuns nas coxilhas, mas eram também o nascimento de uma cultura institucional. Em meados dos anos 1950, com a transformação do 1º Regimento de Cavalaria em Regimento de Polícia Rural Montada, o célebre “Aba Larga”, homens de chapéu de aba larga e túnica azul-turquesa atravessavam povoados, combatendo o abigeato e o contrabando.

Nas ruas da capital e, depois, em cidades do interior, outra figura passou a integrar o imaginário gaúcho. Os “Pedro e Paulo”, duplas que, a partir da década de 1960, percorriam bairros, praças e áreas comerciais em patrulhamento a pé. Sem rádios portáteis, a prevenção dependia do tirocínio policial e do faro apurado dos chamados “perdigueiros”, policiais que enxergavam o estranho no habitual, identificando, antes dos demais, o que ainda não estava evidente.

Foi em 8 de maio de 1967 que a Brigada deu o primeiro grande passo rumo ao policiamento embarcado. A criação, em Porto Alegre, da Companhia de Policiamento Radiomotorizado (Cia PRM), em substituição à extinta Divisão de Rádio Patrulha da Guarda Civil. As onze primeiras Rural Willys, equipadas com rádio transmissor-receptor e ligadas à estação de comando no Quartel-General, inauguraram um tempo novo. Pela primeira vez, a viatura deixava de ser mero meio de deslocamento para tornar-se ela própria um posto avançado da instituição, móvel, conectado, capaz de responder mais rápido a um chamado distante.

Vieram, depois, o rádio HT, com sua frequência aberta, sua estática teimosa, a voz da central rompendo a madrugada, “05 em andamento”, e, mais tarde, os sistemas digitais, a criptografia, os terminais embarcados. O conhecimento do bairro, aquele saber íntimo que o veterano carregava na cabeça, ganhou a companhia do geoprocessamento e dos mapas de calor. As placas, outrora decoradas no turno e passadas de cor ao colega que assumia, são lidas hoje em milésimos de segundo pelo cercamento eletrônico. A consulta, antes dependente da paciência da rede de rádio, chega agora instantânea ao terminal embarcado, e a observação aérea, que reclamava helicóptero raramente disponível, é feita pelo drone que parte do porta-malas da viatura.

A câmera corporal tornou-se testemunha ocular. Ampara o cidadão diante de eventual excesso e o policial diante de acusações infundadas. Uma instituição que aceitou ser vista, e que, ao aceitar, ficou mais forte.

No horizonte, desenham-se possibilidades ainda mais ambiciosas. A Inteligência Artificial (IA) avançando e, em diversos países, robôs humanoides já integram, em caráter experimental, a paisagem da segurança pública. Citando, em Dubai, a polícia opera, desde 2017, o primeiro robô policial humanoide do mundo, hoje reforçado por uma frota crescente de unidades robóticas autônomas, sendo que o emirado fixou a meta de compor um quarto do efetivo com tecnologia robotizada até 2030. Em Hangzhou e em Xangai, humanoides auxiliam no controle de tráfego e em ações de fiscalização ao lado de policiais. Em Singapura, o Xavier patrulha espaços públicos emitindo advertências sonoras. Não é mais ficção. É um futuro próximo, do qual a segurança pública dificilmente escapará, e ao qual a Brigada precisará, no seu tempo, responder.

E, no entanto, é preciso dizer com tranquilidade que nenhuma dessas ferramentas substituirá o policial militar. Substituirão, sim, a precariedade que antes limitava o seu alcance. Mas o gesto humano, a palavra dirigida ao cidadão em crise, a mão estendida ao acidentado, o olhar firme na abordagem, a coragem de entrar onde poucos entram, não cabe em algoritmo algum, e jamais caberá num corpo metálico. A tecnologia ilumina o caminho. Quem o percorre continua sendo o brigadiano. Daí decorre a exigência da nossa hora, vale dizer, uma tropa cada vez mais qualificada, com formação permanente, domínio técnico e maturidade institucional.

Ao policial recém-formado, fica esta lembrança: tu não começas; tu continuas. Há um cavaleiro de outrora que te entregou a missão. Há um Aba Larga, em algum campo gaúcho, que confiou em ti antes mesmo de saber o teu nome. Há um “Pedro e Paulo”, em alguma rua antiga, que ainda caminha contigo. Ao veterano, fica a outra lembrança: nada se perdeu. O cavalo virou viatura, o HT virou terminal digital, a consulta lenta virou resposta instantânea, o helicóptero virou drone, mas o juramento é o mesmo, a farda é a mesma, e o coração brigadiano segue batendo no peito de quem hoje assume o turno.

Talvez seja essa a verdadeira permanência da instituição. Não nos cavalos, nas viaturas, nos rádios, nos algoritmos ou nos humanoides, mas na sucessão silenciosa de homens e mulheres que aceitaram dedicar parte de suas vidas, e por vezes a própria vida, à tranquilidade de pessoas que jamais conhecerão. Enquanto houver um brigadiano disposto a servir, haverá Brigada. O tempo consagra os marcos. A tropa os edifica. Brigada Militar, para frente. O trabalho perfeito é servir.

Boa reflexão.

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