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Estados Unidos da América, Venezuela, Brasil: crise, ação, crise e o vazio de liderança latino-americana

Marco Antonio Moura dos Santos[1]

A recente ação dos Estados Unidos em relação à Venezuela, conduzida sem coordenação com os países da América do Sul, revela mais do que um episódio diplomático isolado. Expõe, de forma contundente, a fragilidade estrutural da América Latina no sistema internacional e a ausência de uma liderança regional capaz de articular respostas coletivas.

O unilateralismo norte-americano não é novidade.[2] Como ensina Hans Morgenthau[3], potências agem conforme seus interesses quando não encontram contrapesos políticos ou institucionais. A questão central, portanto, não está apenas em “Washington”, mas no fato de que a região não foi vista como relevante ou indispensável no processo decisório.

A América Latina respondeu com silêncio, fragmentação e descoordenação. Não houve posicionamento conjunto, tampouco iniciativa de mediação regional. O MERCOSUL, que poderia e deveria atuar como espaço político estratégico, limitou-se à irrelevância institucional, confirmando seu esvaziamento como ator diplomático.

Nesse contexto, chama atenção a postura do Brasil. O governo e a diplomacia brasileira optou por cautela excessiva. Não liderou, não convocou e não articulou; pelo menos de forma pública. A tentativa de preservar um posição de equilíbrio (ficar em cima do muro) ocorreu ao custo do protagonismo regional.[4]

Nas relações internacionais, como lembra Raymond Aron[5], poder não se afirma por discursos, mas pela capacidade de moldar comportamentos. Quando a liderança não é exercida, ela simplesmente deixa de existir. E liderança não exercida não é reconhecida.

O episódio Estado Unidos-Venezuela deixa uma lição clara: onde não há liderança regional, há imposição externa. Se o Brasil pretende retomar seu papel histórico de articulador sul-americano, será necessário ir além da diplomacia retórica e do silencio, investir em liderança concreta, inclusive quando isso significar assumir riscos políticos e tensões internacionais. Do contrário, o continente continuará assistindo às grandes decisões globais do lado de fora da sala e arcando com suas consequências. 

Sem densidade política, o MERCOSUL torna-se um bloco irrelevante justamente nos momentos em que deveria cumprir sua função histórica: articular respostas regionais a crises internacionais; sob pena da América Latina continuar sendo objeto, não sujeito, das grandes decisões geopolíticas.


[1] Coronel Res da Brigada Militar e Especialista Integração e MERCOSUL (UFRGS)

[2] A postura dos Estados Unidos diante da Venezuela seguiu um padrão histórico: decisão unilateral, comunicação tardia aos parceiros regionais e enquadramento do tema como questão de segurança e política doméstica norte-americana, não como agenda multilateral.

[3] MORGENTHAU, Hans Joachim. Politics among nations: the struggle for power and peace. 7. ed. New York: McGraw-Hill, 2006. Hans Morgenthau é um dos principais formuladores do realismo clássico em relações internacionais, corrente segundo a qual os Estados atuam prioritariamente conforme seus interesses nacionais e a lógica do poder.

[4] Isso não significa irrelevância diplomática absoluta do Brasil, mas aponta uma perda de centralidade estratégica no continente.

[5] ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Tradução de Sérgio Bath. 2. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2002.  Raymond Aron analisa as relações internacionais como um campo marcado pela assimetria de poder, pela inexistência de autoridade supranacional efetiva e pela centralidade da capacidade de influência real.

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