Tiradentes, a derrama e o Brasil que aceitou pagar a conta

O Brasil celebra Tiradentes e ignora o que ele representa. Sem novos inconfidentes, o Brasil administra a própria “derrama”

Marco Antônio Moura dos Santos[1]

“Defendia a liberdade de sua terra e estava disposto a sustentá-la, ainda que sozinho.” (com base nos autos da Devassa da Inconfidência Mineira)

O Brasil transformou “Joaquim José da Silva Xavier o Tiradentes[2]em feriado nacional[3], mas deixou de avaliar seu significado político. Todos os anos, no dia 21 de abril, repetem-se homenagens, discursos protocolares e frases de ocasião. Mas quase nunca se enfrenta a pergunta essencial: se “Tiradentes” simboliza a reação contra o abuso do poder, contra a cobrança injusta e contra a distância entre o Estado e o povo, por que o Brasil de hoje tolera, com tanta resignação, a sua própria derrama[4]?

A Inconfidência Mineira[5] não nasceu de um capricho. Nasceu do esgotamento. A Derrama foi o gatilho, mas não foi a causa profunda. O problema era maior: um sistema que cobrava demais, entregava de menos e tratava a sociedade como fonte inesgotável de arrecadação. Tiradentes compreendeu que havia um limite moral à obediência. E esse é precisamente o ponto que o Brasil contemporâneo evita discutir.

A nova derrama brasileira não vem mais acompanhada de tropas recolhendo ouro. Ela é mais sofisticada, mais permanente e mais silenciosa. Está na carga tributária elevada que não retorna em serviços públicos proporcionais; na insegurança que aprisiona famílias dentro de casa; na burocracia que sufoca quem trabalha, empreende e produz; assim como na máquina pública que muitas vezes funciona melhor para preservar estruturas do que para entregar resultados ao cidadão.

O país não vive mais sob a Coroa portuguesa. Mas ainda convive com uma lógica de poder distante da vida real. Muito Estado para sustentar privilégios, pouco Estado para proteger o cidadão. Muito discurso sobre justiça social, pouca entrega concreta em segurança, educação, saúde e eficiência. Muito aparato institucional, pouca responsabilidade mensurável.

É preciso dizer com clareza: o problema brasileiro não é apenas este ou aquele governo. O problema é um modelo político que se reproduz, se protege e se adapta. Governos mudam, mas a engrenagem permanece.  Partidos, salvo honrosas exceções, deixaram de representar ideias e passaram a operar posições. Coalizões se formam menos por projeto de país e mais por conveniência de poder. A governabilidade, que deveria servir à sociedade, muitas vezes se converte em mecanismo de sobrevivência política.

O resultado está diante de todos: o discurso substitui a entrega; a polarização substitui o planejamento; a disputa eleitoral substitui a responsabilidade pública. O cidadão paga a conta duas vezes: primeiro com impostos, depois com a ausência de resultados.

“Tiradentes” incomoda porque recorda que “há momentos em que a neutralidade deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade”.[6]

Não se trata de defender aventuras, rupturas irresponsáveis ou atalhos fora da democracia. Ao contrário: trata-se de recuperar a política como instrumento legítimo de mudança, com coragem, método, responsabilidade e compromisso público.

O Brasil não precisa de heróis isolados. Precisa de novos inconfidentes organizados. Homens e mulheres que compreendam que a transformação não virá apenas da indignação nas redes sociais, nem da reclamação privada, nem da esperança passiva em salvadores. A mudança exige presença. Exige ocupação qualificada da política; voto consciente; cobrança permanente; liderança com princípios e capacidade de execução.

Esses novos inconfidentes existem. Estão nas forças de segurança que sustentam a ordem mesmo diante de estruturas insuficientes; no setor produtivo que mantém o país em movimento apesar da burocracia e da insegurança jurídica; no serviço público que ainda preserva compromisso com resultado e nas famílias que querem apenas viver em paz, trabalhar, educar seus filhos e não serem tratadas como súditas de um Estado que exige muito e devolve pouco.

Mas eles estão dispersos. E força dispersa não transforma realidade. Apenas resiste. O desafio político do nosso tempo é transformar indignação em organização, valores em projeto, projeto em mandato e mandato em resultado.  Por isso, a eleição não pode ser tratada como espetáculo. Ela é o momento em que a sociedade decide se continuará financiando a própria frustração ou se começará a impor limites ao sistema. Votar não é apenas escolher nomes. É escolher o tipo de Estado que se aceita sustentar.

Essa é a conexão atual com “Tiradentes”. Não a romantização do passado, mas a exigência de postura no presente. A Inconfidência Mineira nos lembra que nenhum sistema conserva legitimidade quando se afasta da sociedade, quando cobra sem devolver, quando exige sacrifícios sem entregar justiça, segurança e prosperidade.

O Brasil chegou novamente a esse ponto de inflexão. Ou aceita a nova derrama como destino, ou organiza uma resposta política responsável. Ou continua reclamando do sistema, ou passa a disputar o sistema por dentro, com clareza, firmeza e coragem.

Sem novos inconfidentes, o Brasil continuará administrando a decadência. Com novos inconfidentes, conscientes, preparados e organizados ainda é possível reconstruir o caminho.

A pergunta, portanto, não é o que Tiradentes fez no passado. A pergunta é o que nós estamos dispostos a fazer agora.

A derrama de hoje não será enfrentada com silêncio. Será enfrentada com voto, organização, coragem e responsabilidade.


[1] Coronel da Reserva da Brigada Militar

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes

[3] Lei no 10.607, de 19 de dezembro de 2002.

[4] https://www.scielo.br/j/topoi/a/jStrwgGFM6HjxTzS3jLB4dq/?format=html&lang=pt

[5] https://pt.wikipedia.org/wiki/Inconfid%C3%AAncia_Mineira

[6] https://www.scielo.br/j/topoi/a/jStrwgGFM6HjxTzS3jLB4dq/?format=html&lang=pt

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