Marco Antônio Moura dos Santos[1]
O “complexo de vira-lata”, popularizado na época por Nelson Rodrigues, sempre foi uma crítica ao hábito brasileiro de se perceber como menos do que se é[2].
O “complexo de inferioridade” é um alerta para uma nação que não se vê como forte. O problema não é dos brasileiros se sentirem inferiores, o impasse, ainda maior e mais perigoso, é do governo tentar fazer a nação acreditar que está em uma situação melhor do que realmente está.
O discurso não soa fraco, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala de uma disposição para abandonar o “complexo de vira-lata”[3]. Mas somente palavras não podem mudar a realidade. E o Brasil precisa mais do que discursos. Precisa de resultados!
O que os cidadãos experimentam em seus cotidianos não é uma história, é um estado de insegurança, instabilidade e imprevisibilidade. O “complexo de vira-lata” não será combatido com frases de efeito. Se enfrenta com um Estado que funcione, com uma economia estável, onde exista segurança nas ruas e haja respeito às instituições. Onde o povo tenha saúde e educação pública de qualidade; ou seja, que tenhamos um Estado eficiente e que faça entregas à população.
Negar problemas não fortalece o Brasil! Ao contrário, irá enfraquecê-lo. Ignorar a realidade não gera confiança. Gera descrédito. E o descrédito custa caro, dentro e fora do país! O Brasil não será respeitado porque fala alto. Ele será respeitado quando tiver uma gestão melhor. E isso exige liderança, responsabilidade e políticas públicas devidas. Exige coragem para enfrentar a verdade e não para escondê-la.
O verdadeiro patriotismo não está no discurso. Está na capacidade de entregar um país melhor para a sua população.
E é exatamente isso que falta. Falta gestão e direção. Precisamos de compromissos com objetivos e metas. E não se trata de ideologia, de política partidária, mas sim de responsabilidade com o país. Nós não precisamos provar nada para o mundo. Precisamos “consertar o Estado”. E “consertar o Brasil” exige mais do que palavras. Exige ação, mudança de postura e de rumo. Porque, no final, os cidadãos não vivem de discursos, eles vivem de realidade. E é por isso que nossa nação precisa dar um passo à frente, com seriedade e com compromisso real com quem vive, trabalha, produz, desenvolve e sustenta este país.
O verdadeiro patriotismo requer lucidez. Exige reconhecer falhas, corrigir rumos e assumir responsabilidades. Sem isso, o discurso vira apenas um exercício de convencimento e não de liderança. O brasileiro não precisa ser convencido de que não é inferior! Ele precisa viver numa nação que funcione melhor. Segurança, oportunidade, previsibilidade, respeito institucional, ética e justiça social; é isso que constrói orgulho nacional, não slogans!
No fim, o debate não é sobre o “complexo de vira-lata”. É sobre governança. O Brasil não será respeitado porque diz que é grande; mas sim quando for demonstrado, de forma consistente, que o Estado é capaz de entregar qualidade de vida, estabilidade e futuro à população. No entanto, se recebermos migalhas, ou necessitarmos viver “virando latas” para sobreviver, nunca iremos dar valor ao nosso povo e nunca seremos respeitados.
Não necessitamos demonstrar aos outros que não somos “vira-latas”. Nós precisamos reforçar ao povo brasileiro que somos sim um país com potenciais imensos e que possuímos a aptidão para colocarmos toda esta capacidade em favor do povo, para que ele tenha uma vida melhor!
Se há algo a ser modificado, não é apenas um conceito. É a distância entre discurso e realidade. Porque Estado forte não é o que fala alto. É o que entrega, é o que é eficiente.
Menos discurso. Mais resultado. Esse é o caminho.
[1] Coronel Marco Santos, Coronel da reserva da Brigada Militar. Especialista em Integração e MERCOSUL (UFRGS)
[2] RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Cia. das Letras, 1993. p.51- 52: Complexo de vira-latas.
[3] https://www.cnnbrasil.com.br/politica/lula-diz-que-e-preciso-acabar-com-o-complexo-de-vira-lata-dos-que-nao-acreditam-no-brasil/
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