―“Fui ver, não mandei outros verem.” — Duque de Caxias
As fotografias que circularam nestes dias mostram sempre a mesma cena. Tijolos amontoados, telhas partidas, madeira exposta, uma escavadeira trabalhando sobre o que até pouco tempo eram paredes. Tapumes fechando a calçada, placa de obra, caçambas. Ao fundo, ainda de pé, o trecho da fachada verde e branca que gerações de porto-alegrenses aprenderam a reconhecer na Rua Dezessete de Junho. O antigo quartel do 1º Batalhão de Polícia Militar está sendo demolido.
Quem serviu ali demora o olhar nessas fotografias. Não se explica isso pelo valor do imóvel nem por apego à alvenaria. Um quartel é também onde se aprende o ofício. É onde o policial recém-formado se apresenta, onde assume e entrega o serviço durante anos e de onde sai diariamente para fazer aquilo para que foi preparado. Após algum tempo, aquele endereço passa a integrar a biografia de quem o frequentou. Há naquele terreno alguma coisa que a planta do prédio nunca registrou. Quem passou por lá entende sem que seja preciso explicar.
Aquele não era um prédio qualquer. O 1º Batalhão nasceu pelo Decreto nº 384, de 21 de outubro de 1892, e é a unidade operacional mais antiga da nossa Instituição. Chamou-se 1º Batalhão de Infantaria, passou a Batalhão de Caçadores em 1936, a Batalhão de Guardas em 1961, e apenas em 1968 recebeu a designação que hoje ostenta. Mudou de nome três vezes sem mudar de identidade, e seguiu sendo chamado, por todos, pela alcunha que ganhou em combate, Batalhão de Ferro.

Ela veio de Buri, no interior de São Paulo, durante a Revolução Constitucionalista. Na frente sul, a nossa Brigada Militar empregou 2.393 homens, e ao 1º Batalhão de Infantaria coube a tarefa mais difícil, num combate que duraria mais de vinte e quatro horas. No dia 26 de julho de 1932, o então Tenente-Coronel Aparício Gonçalves Borges, que ingressara na Briosa em 1911 e chegara a alferes dois anos depois, comandava a Unidade sob fogo cruzado. O relato do comandante da vanguarda, expedido poucos dias depois, descreve-o sereno em meio à refrega, dando ordens e estimulando os seus homens sem se curvar diante da fuzilaria. Uma rajada disparada a cinquenta metros feriu-o mortalmente. Caiu sem uma exclamação de dor.
O cabo corneteiro Timóteo Alves da Rosa, que ficara guardando o comandante enquanto se procurava recurso para retirá-lo do local, foi atingido pela metralha e morreu sobre ele. O Major Camilo Diogo Duarte assumiu o comando em pleno combate e sustentou oito horas de fogo. Aparício foi transportado para Itararé e morreu no dia seguinte. Seria promovido a coronel post mortem. Não completará trinta e nove anos. Deixou seis filhos, já órfãos da mãe.
Foi então que chegou ao novo comandante um documento expedido pelo comandante da vanguarda das Forças Ordinárias do Sul. Nele estava escrito que o elemento férreo parecia não estar somente no território, mas “nas veias de cada combatente”, e que aquele era um batalhão de homens de ferro. O nome pelo qual a Unidade é conhecida até hoje nasceu ali, naquele relato de campanha. Antes de ser tradição, foi testemunho.
A geração seguinte compreendeu que lembrar não bastava. Em 20 de setembro de 1934, dois anos depois, foi inaugurado, em frente ao quartel do 1º Batalhão de Infantaria, na Chácara das Bananeiras, hoje Departamento de Ensino da Brigada Militar, o monumento a Aparício Borges e ao corneteiro Timóteo, projetado por Francis Pelichek e executado com Vitório Livi. A escultura não escolheu a vitória nem a parada militar. Escolheu o instante em que o comandante é atingido. Meio século mais tarde, em 1985, o Estandarte Histórico da Unidade trouxe o listel com a inscrição Batalhão de Ferro e cinco estrelas de ouro, simbolizando as batalhas de que a Unidade participou na campanha de 1932. Era preciso deixar sinais para os que viriam depois.
É diante desse antecedente que se olha a obra atual. A nova sede virá. A fachada histórica será mantida e integrada ao novo complexo, e há previsão de espaço destinado à história do Batalhão, com fotografias, cartas e objetos ligados à sua trajetória. Nada disso é pequeno. É, no fundo, o que a geração de 1934 fez com os meios de que dispunha.
A parte mais difícil começa depois da inauguração. Um memorial só cumpre a sua função quando alguém, com constância, explica ao soldado que chega por que sua Unidade se chama assim, quem foi Aparício Borges e o que aconteceu naquele julho de 1932. Até um nome pode sobreviver ao significado que lhe deu origem. Batalhão de Ferro pouco dirá a quem nunca tiver ouvido falar de Buri. Memória institucional se ensina, se relembra nas formaturas e, sobretudo, se transmite na convivência entre os que chegaram antes e os que estão chegando. Ela depende de oficiais e praças dispostos a contar a mesma história para quem ainda não a ouviu, turma após turma. Sem esse trabalho, o acervo permanece guardado e a história deixa de circular entre os nossos.
Quem serviu no 1º BPM e, mais precisamente, no velho casarão, reconhece com muita tristeza naquelas imagens muito mais do que paredes que deixaram de existir. Para os que vierem depois, o antigo quartel será conhecido apenas pelas fotografias e pelos relatos de quem por ali passou. Chegará o dia em que ninguém do Batalhão terá servido naquele antigo quartel, ficando somente as imagens. Foi assim com o velho e também histórico casarão do 9º BPM, o Batalhão Voluntários da Pátria, que igualmente teve seus tijolos tombados ao solo a partir de 1975, com conclusão em 1981.
Por fim, cabe registrar que quem passou a vida na Brigada Militar também compreende o outro lado dessa imagem. Prédios envelhecem. Mas o certo é que o velho casarão, histórico e forte, doado ao Estado em 1932, quando passou por uma grande reforma que por certo foi operada pelas mãos calejadas dos antigos brigadianos, sempre foi o balizador de referência para os habitantes da zona sul da capital e resistiu aos tempos, incluindo dois incêndios e as grandes enchentes de 1941 e 2024, mas infelizmente não resistiu à modernidade. Assim, nenhum de nós recebeu essa história por acaso. Alguém, antes, teve o cuidado de contá-la e preservá-la.
É a história sendo remodelada pelos novos tempos.

