O feminicídio não começa com o crime. Começa quando a violência é tolerada.

Quando o álcool entra em alguns lares, o respeito muitas vezes sai pela porta

Toda sexta-feira parece trazer consigo uma sensação de alívio. É o fim da semana de trabalho, o momento de reunir amigos, assistir ao futebol, fazer um churrasco, confraternizar. Nada há de errado nisso. Muito pelo contrário. A convivência familiar e os momentos de lazer fortalecem relações e fazem parte da nossa cultura.

O problema começa quando a diversão perde o limite.

Existe uma frase que, infelizmente, resume uma realidade vivida por milhares de mulheres brasileiras:

“Quando o álcool entra em alguns lares, o respeito muitas vezes sai pela porta.”

Não é a bebida que cria um agressor. Mas ela frequentemente reduz barreiras, potencializa impulsos e faz aflorar comportamentos violentos que já existiam. Quem convive diariamente com a segurança pública conhece essa realidade.

Ao longo da minha trajetória na Brigada Militar e na criação da Patrulha Maria da Penha, acompanhei inúmeros casos em que o cenário era praticamente o mesmo: uma reunião familiar, uma festa, um jogo de futebol, consumo excessivo de bebida alcoólica, discussão e, pouco depois, agressões físicas, psicológicas e, infelizmente, em alguns casos, feminicídios.

Enquanto muitos comemoram uma vitória do seu time, outras mulheres contam as horas para saber se o companheiro chegará embriagado. Enquanto alguns brindam entre amigos, muitas crianças se escondem no quarto para não presenciarem mais uma noite de gritos, ameaças e violência.

O medo também mora dentro de casa.

E talvez essa seja a forma mais cruel da violência doméstica: ela acontece justamente no lugar que deveria representar proteção.

Não podemos normalizar frases como “ele bebeu demais”, “não sabia o que estava fazendo” ou “amanhã ele pede desculpas”. O álcool jamais pode servir como desculpa para uma agressão.

Toda violência é uma escolha. Toda agressão é responsabilidade exclusiva de quem a pratica.

Por isso, o combate ao feminicídio não passa apenas por leis mais rigorosas, embora elas sejam fundamentais. Passa também por mudança de cultura, educação, prevenção e responsabilidade coletiva.

Amigos não incentivam comportamentos agressivos. Familiares não podem fechar os olhos. Vizinhos não devem se omitir. Denunciar salva vidas.

Neste início de mais um fim de semana, deixo um convite à reflexão.

Que as comemorações terminem em abraços, não em boletins de ocorrência.

Que o futebol una famílias, não destrua lares.

Que a bebida nunca seja mais forte do que o respeito.

Porque nenhuma mulher deveria ter medo de quem prometeu protegê-la. E nenhuma criança deveria crescer acreditando que violência faz parte da vida.

O verdadeiro homem não demonstra força pela violência.

Demonstra força pelo respeito.

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