O resultado das eleições de outubro deflagrou uma mudança significativa no cenário político no estado, com a retomada de uma mínima representatividade dos brigadianos e bombeiros militares no parlamento gaúcho.
Voltando à década de 90
A participação efetiva dos militares estaduais em eleições pode ser contada a partir da democratização do país, quando foi possível os militares, em especial aos praças, votarem e serem votados. A última oportunidade de representação no parlamento gaúcho foi na década de 90/2000 estabelecido pelas seguintes representações:

Primeiramente, com o deputado estadual João Osório, homem simples, à época pelo PMDB, que por um pequeno período foi sargento enfermeiro na Brigada Militar,Militar mantendo-se com uma média de 40 mil votos até o ano de 2003.
Conquistou vários avanços, buscando interlocução com as entidades representativas da BM e CBM, trazendo algumas conquistas importantes, como o vale-alimentação, o passe livre nos ônibus intermunicipais e a regulamentação das horas extras aos militares estaduais, dentre outros.
Por estas defesas, associadas à defesa da assistência social ao homem do interior, conquistou 06 mandatos. Em 2006, aumentou significativamente sua votação, cooptando 68.156 votos.
Uma das suas melhores qualidades foi a capacidade de diálogo tanto com governos de situação como com governos em que exercia oposição, como exemplo o governo Olívio Dutra, em que, mesmo sendo oposição, articulou com deputados da base do PT a regulamentação das horas extras.

Deputado José Gomes (PT) que também, na década de 90, após se eleger vereador de Porto Alegre, passou a fundamentar seu discurso na luta, especialmente em favor dos praças, com um discurso do “soldado operário contra o oficial opressor”, o que lhe rendeu a eleição a deputado estadual em 1994, com 23.066 votos.
Sua atuação serviu para aquele momento específico, pois a política do soldado contra o oficial logo adiante trouxe ainda mais discórdia entre os círculos institucionais.
Encontrou sérias dificuldades de construção coletiva por sua posição contundente e demasiadamente agressiva com governo de oposição.
Seus seguidores passaram a cobrar soluções, muitas delas simples, especialmente quando teve o governo Olivio Dutra (PT) a seu favor e por vezes assumiu algumas posições antagônicas a classe policial.
Teve a chance de um segundo mandato em 2000, no lugar da então deputada Maria do Rosário, e em 2001, no lugar do deputado Paulo Pimenta, na condição de suplente, mas não conseguiu dar continuidade ao seu mandato, encerrando definitivamente seu ciclo.

Deputado Marquinhos Lang (PFL, a época), da mesma forma, bombeiro reformado, acidentado em serviço, oriundo do Corpo de Bombeiros Militar, se elegeu em 2007/2011 e não conseguiu se reeleger em 2014.
Exerceu um mandato, demonstrando bastante interesse em atender às demandas dos policiais, aberto a defender as justas reivindicações das associações de classe, porém com o apoio menor do efetivo policial, tendo sua base na região do Vale do Taquari e portadores de necessidades especiais.

Deputado Bombeiro Bianchini (PR à época) se elegeu em 2014 com 13.515 votos, exercendo um mandato dissociado dos interesses policiais, se posicionando muitas vezes até de forma contrária nas demandas das categorias da Brigada Militar.
Teve sua votação muito localizada na região central, especificamente em Santiago-RS, onde teve atuação presente na comunidade, exerceu mandato em defesa da região e, superlativamente, da sua classe de origem.
O que pode mudar com a eleição de uma oficial e um praça eleitos em 2026
Antes de qualquer análise o resultado se apresenta como possibilidade de quebra de um paradigma sendo eleito um servidor de nível médio e um servidor de nível superior.

Comandante Nádia – Deputada Estadual (PL) 111.341 votos
Dentro do atual cenário, vale dizer que, com a eleição da deputada Comandante Nádia, algumas perspectivas podem ser possíveis, ou mesmo desejável.
1. Com a votação expressiva de 111.341 votos, sua experiência de já ter presidido o legislativo (Câmara de Porto Alegre) e ser mulher, possa ser a indicada pelo PL para presidir a Assembleia Legislativa do RS já no primeiro ano e abdicar de qualquer proposta de Secretaria de Estado, o que poderia produzir nova esperança aos Militares Estaduais, assim como para a área da segurança em geral;
2. Em sendo presidente da AL, ou não, poderá estreitar os laços diretamente com as representações das categorias, somando esforços com o outro deputado eleito, soldado Gio Krug, tendo em vista que, independentemente de protocolos estabelecidos, ela é uma profunda conhecedora das demandas dos policiais;
3. Por sua muito próxima relação de amizade com o futuro governador Zucco, sua relação com as entidades representativas e podendo ser presidente do Legislativo, tem total condições de fazer construções que possam atender aos interesses dos policiais, beneficiando Zucco em uma interlocução direta com o governador e associações e sindicatos e mudar o cenário existente de total falta de diálogo dos 08 anos de Eduardo Leite.
4. Outro ponto favorável é a presença do mandato do deputado Delegado Zucco, irmão do governador, também eleito para o parlamento, com quem poderá fazer construções importantes.

Soldado Gio Krug ou Giordani Krug Campos Ramos, Deputado Estadual (PSD) – 49.844 votos
Em 2024 já havia surpreendido o município de Passo Fundo quando se reelegeu vereador com 3.261 votos, sendo o mais votado, passando a presidir o legislativo daquela cidade.
Gio Krug construiu sua vitória na sua base eleitoral, justamente em Passo Fundo, onde conseguiu uma votação histórica, obtendo 33.548.
Associados da ABAMF e ASSTBM, duas maiores entidades representativas, somados à AOFERGS e ASPRA, dentre outras, auxiliaram na consolidação de sua eleição, expandindo para dezenas de municípios sua candidatura vitoriosa.
O que pode se esperar do Deputado Soldado Gio Krug:
1. O deputado brigadiano tem a possibilidade de representar a base legislativa do governador eleito, Coronel Zucco, construindo com a Comandante Nádia o início do diálogo, levando as demandas das categorias ao governador;
2. Estabelecer a interlocução permanente das categorias tanto com as lideranças das bancadas, como também com o próprio governo, ocupando o espaço do seu partido para indicar preferências para a segurança pública, tendo em vista que dos 05 deputados estaduais eleitos pelo PSD, 03 são policiais. (duas delegadas da Polícia Civil e um soldado da BM).
3. Articular, junto com o PSD, que tem 05 deputados e junto ao PL, que tem 12 cadeiras no legislativo, desde o início do mandato, a defesa dos interesses da segurança pública, assumindo compromisso com outras pautas de deputados de sua base, sempre buscando a união de esforços com a deputada comandante Nádia.
O que esperar a partir de 2027?
Todos sabemos que o futuro é incerto, pois já tivemos nas últimas 2 décadas, militares da BM e CBM no parlamento gaúcho e, infelizmente, as construções ficaram muito a desejar, causando frustração na classe policial.
Por outro lado, é bom ressaltar que o interesse de ter a Comandante Nádia e o Soldado Krug como legítima representação dos militares estaduais deve ser primeiramente de interesse dos próprios policiais e de suas representações, que devem reservar apoio aos parlamentares, seja fazendo proposições endereçadas a esses parlamentares, mas lotando principalmente as galerias do parlamento quando os temas forem de interesse comum, criando uma fortaleza política aos parlamentares na defesa de todos.
É inegáve, que a força política conquistada nos mandatos da Comandante Nadia e Soldado Gio Krug, é algo de boa grandeza pois representam dois deputados eleitos que carregam mais de 160 mil votos.

